Sobre o Christus e o ENEM

Quando eu tinha onze anos e fui finalmente mudar de escola, os conselhos que me deram foram muitos. A maioria deles envolvia meu comportamento e como eu não ia durar uma semana num colégio cheio de regras como o Christus. Também me disseram que, em um colégio tão grande, os alunos eram apenas números, que ninguém conhecia você pelo nome, que não sabiam quem você era. Claro, para uma criança que vinha de uma escola cooperativa e “pedagógica”, e, sim, tem um motivo para as aspas, aquilo foi apavorante. Eu cheguei no Christus esperando alguma coisa como a escola do filme Matilda (sabe como é, né? que as crianças ficavam atrás de uma porta com espinhos de ferro de castigo na sala da diretora e tal). Mas o que eu encontrei foi algo completamente diferente.

Primeiro, que o Colégio Christus sempre foi, na minha experiência, uma escola muito mais pedagógica do quew o colégio cooperativo que eu estudei. É engraçado, sabe? Quando eu era criança, tinha problemas de comportamento porque eu ficava entediada porque as aulas eram muito fáceis para mim, e, num colégio, que em tese, pregava a singularidade dos alunos, eu era vista como uma criança problemática. Em oposição, quando eu entrei no Christus, num colégio que, em tese, eu seria “mais um número”, eu nunca tive absolutamente nenhum problema. Aliás, ser um número foi algo que nunca aconteceu comigo. Se tem uma coisa que eu nunca vou poder reclamar do colégio é que não conhece os alunos. Porque todos os coordenadores e praticamente todos os professores que eu tive me conheciam pelo nome, e, não só eu, a maioria de meus colegas. Até hoje, anos depois que saí do colégio, se encontro antigos professores na rua, eles sabem quem eu sou. Mais um número? Tá bom, né?

Outra coisa que sempre falaram foi da intolerância religiosa. Porque o Christus é um colégio católico, que tem educação religiosa, e, me diziam, que não aceitavam pessoas de outras religões. E eu pensava, “Pronto! Fudeu!” (Tá, eu tinha onze anos, não pensava assim não, eu era inocente, mas o sentido era esse!). Achava que iam empurrar em mim crenças e valores que não eram meus. Mas isso nunca aconteceu. Sempre tive total liberdade para me expressar religiosamente (e de qualquer outra forma), para argumentar, para não participar de eventos religiosos (estudei lá por SEIS ANOS e NUNCA participei de NENHUM, incluindo a missa de formatura!). Nunca me chamaram atenção por isso, nunca me criticaram, nunca me julgaram. Os valores que o Colégio Christus me ensinou foram de caráter e integridade, e levo comigo até hoje.

Aí, nessa semana, a coisa explode. “Vazamento” de questões do ENEM no Colégio Christus, escola do Ceará, colégio corrupto, sem valores, sem moral, sem integridade, que tipo de exemplo estão dando para seus alunos, e BLAH BLAH BLAH BLAH BLAH… Nas redes socias, os ataques locais e nacionais, na maioria das vezes, por parte de pessoas que não tem a menor noção sobre a história da intituição, sobre os valores, sobre as conquistas, e, mas importante, sobre o tipo de pessoa que trabalha lá. Porque quando você vai para um lugar todos os dias da sua vida por seis anos (e meu irmão estuda lá há onze!), você conhece as pessoas. É muito fácil para quem não estudar lá falar que houve vazamento das questões, que o colégio é corrupto, que isso e aquilo, quando eles nem sabem como as coisas acontecerem realmente. Para falar a verdade, eu também não sei.

Mas eu sei de alguns fatos: sei que o Ministro da Educação está concorrendo para a prefeitura de São Paulo e precisava de um bode expiatório, precisava abafar o caso o mais rápido possível, e jogou toda a culpa, em MENOS DE VINTE QUATRO HORAS em cima de um único colégio. Sei que quem postou sobre as questões num caderno de questões do Christus era aluno de outra instituição, que também teve acesso às questões, então anular a prova dos alunos do Colégio Christus é uma medida ridícula, porque obviamente outros alunos tiveram acesso à prova: ou anula de todos, ou de nenhum, só as questões. Sei que as questões já tinham sido aplicada ao PÚBLICO antes, para mais de 100 MIL pessoas, então eles mesmo já tinham quebrado a isonomia da prova, deixando essas pessoas em vantagem, essas questões nem deveriam, ou poderiam estar, iguais no teste.

E, principalmente, sei, que seja lá como as questões apareceram no banco de dados do colégio, seja lá quem botou não esperava vê-las iguais na prova do ENEM. E não falo isso porque é um colégio íntegro e moral — o que acredito com tudo que eu tenho que é — mas por que desafia a lógica e o bom senso que eles fariam isso. Gente, pelo amor de Deus! Eles não são burros! Deixando moral de lado, claro que saberiam que se fraudassem, comprassem ou sei lá o que, todo mundo ia saber. O Colégio Christus tem 61 anos de tradição! Uma reputação impecável! Ano passado, teve a maior média no ENEM no Ceará (e antes que alguém vá falar que foi o Farias Brito, a palavra média, quer dizer SOMA de todas as sedes, E A DIVISÃO pelo número de sedes). Eles não iam acabar essa reputação, essa tradição por um número mísero de questões, menos de 10% da prova. Lógica e bom senso também foram valores que eu aprendi na escola (além da educação em casa, mãe, eu sei, brigada!). Eu fiz vestibular em 2005 quando estudava no Christus, passei em duas faculdades, sem me darem nenhuma questão da prova. Eles me deram ensinamento, conteúdo, apoio, casa. Não respostas da prova antes. Em 2008, quando eu quis mudar de faculdade porque não estava gostando, eu assisti duas semanas de revisão no Christus, passei em mais duas faculdades! De novo, sem respostas dada! Se as pessoas pararem para pensar antes de julgar, antes de sair gritando sem saber do que tão falando, vão ver que o que elas tão dizendo não faz o menor sentido.

Espero que a justiça seja feita, pelo Colégio Christus, pelo qual tenho tanto carinho e admiração, e cuja reputação eu sei que é íntegra, e pelos alunos, que estudaram tanto o ano todo, perderam noites, fins de semana se preparando para essa prova.

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18 Comments

Filed under Education

18 responses to “Sobre o Christus e o ENEM

  1. Perfeito seu texto Barbie!!! Usar as questões num pré teste e depois fazer esse carnaval todo é coisa de gente incompetente e que tem muito mais a esclarecer do que o colégio. Esse ME já deu o que tinha que dar. Todo ano é a mesma coisa e sempre tem problemas o tal do ENEM. E o pior é que a quantidade de gente falando bobagem e detonando os nordestinos aumenta a cada dia. É a liberdade de expressão irresponsável, de quem julga por “ouvir falar”. Assim caminha a humanidade… Um abraço!

    • Obrigada! Eu nem entrei nessa questão de culpar não só no colégio, mas como nos nordestinos, porque senão acho que ia ficar um livro aqui, mas, interessante como vai se ramificando, cada um faz sua merda, e fica tentando encontrando quem culpar. Usaram questões repetidas? Culpa o colégio. Fizeram pontuação baixa? Culpa os nordestinos! Acho que seja, talvez, uma condição do ser humano, não querer assumir a culpa por seus atos. O pior, é que na maioria das vezes, acaba prejudicando quem não tem nada a ver com isso. Nesse caso, 639 alunos pré-vestibulandos e a reputação de uma escola íntrega e séria.

      • Eu sei bem como é o Christus. Meus dois filhos estudam lá, mas são pequenos e não fizeram o ENEM. Imagino o que a direção deve estar passando lá por causa desse imbróglio! Também acho muito difícil as pessoas assumirem as suas falhas. Pra piorar, vejo que existe uma necessidade “animalesca” de se linchar o semelhante apenas por “ouvir falar”. Duvido que essas pessoas que estão se manifestando tenham procurado se aprofundar e conhecer as versões de ambas as partes. Há um certo tipo de prazer mórbido em participar do linchamento. Aí o sujeito coloca todos os seus demônios pra fora e a rede trata de disseminar. A verdade???? Ahhhh, a verdade é apenas um detalhe, né?
        Achei muito bacana a maneira como você se colocou. Se você me permitir, vou compartilhar seu texto!

  2. Ótimo texto, Barbie.. Assino infinitamente embaixo!! x)

    • Isso mesmo! Li o artigo e concordei! Varreram para baixo do tapete e culparam o mais fraco! :/ Espero de verdade que esse Haddad perca as eleições! Deus me Livre um homem desse no comando.

  3. leticia

    Assino embaixo.
    Eu visto a camisa do Christus com o MAIOR orgulho do mundo!

  4. Alice

    Apoiadíssimo! Os ensinamentos que o Christus fornece para os seus alunos servem para a vida inteira! Lá se preparam mais que vestibulandos fadados ao sucesso nas provas, preparam-nos para sermos profissionais com valores. Muito dos meus méritos alcançados hoje eu devo a esse colégio, então agora é a hora de retribuir, apoiando-o !

    • Pois é, Alice, é o que a minha mãe sempre fala, que enquanto tantos outros colégios simplesmente dão “bizus” para as provas, o Christus ensina o conteúdo para fazer as questões, para entender como resolvê-las! Acho que isso é a grande diferença, e porque o Christus se destacou tanto no ENEM em relação ao vestibular da UFC. Desde que houve a mudança, o colégio subiu, porque a metodologia de ensino é fazer o aluno raciocinar e entender, e não é todo colégio que dá isso não!

      Hoje fui la, dar apoio e mostrar que estou do lado deles! Sabem disso, mas é sempre bom estar lá fisicamente!!!! Muito bem dito! 🙂

  5. Liana

    Muito orgulhosa do seu texto ( mãe coruja mode on). Concordo plenamente com o que você escreveu. Os que me conhecem muitas vezes estranham como eu, uma pessoa reconhecidamente crítica, não religiosa e de comportamentos reconhecidamente heterodoxos, coloquei meus filhos para estudar no CHRISTUS.
    O seu texto é a resposta a essa pergunta. O colégio nunca escondeu seu viés religioso, sua postura conservadora e seu incentivo à competitividade que é característica da sociedade comtemporânea. No entanto, ao mesmo tempo, imprime no seu dia-a-dia, a marca de outros valores que também prega, como uma preocupação com um aprendizado que vá além dos famigerados bizus, mas que forme os alunos para a vida e a tolerância para com as diferenças individuais dos alunos (sejam religiosas, estéticas ou comportamentais). Essas posturas permitem que seus alunos formem suas próprias idéias e desenvolvam-se como seres conscientes, se assim desejarem. Orgulhosa dos meus filhos, que sempre honraram os ensinamentos que lhes transmiti, parabenizo o colégio onde, mesmo sendo muita vezes considerados outsiders e “exóticos”, sempre receberam de colegas, professores, coordenadores e funcionários, o carinho e o respeito que todo indivíduo merece e deseja, por mais diferente que possa ser.

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